PIB cresce 0,5% no 2º trimestre, mas dívida bruta atinge o maior nível desde 2021 e 82% das famílias têm dívidas, segundo IBGE, Banco Central e CNC.
A economia brasileira continua crescendo, mas em ritmo menor e com as contas públicas e o orçamento das famílias sob pressão. O PIB subiu 0,5% no segundo trimestre de 2026 sobre o primeiro, após alta de 1,1% nos três meses anteriores, segundo o IBGE. A dívida bruta do governo chegou a 82,5% do PIB em julho, maior patamar desde abril de 2021, e o endividamento das famílias atingiu 82%, recorde da série da CNC.
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Contas públicas: déficit projetado, meta cumprida no papel
O Tribunal de Contas da União (TCU) projeta déficit primário de R$ 59,8 bilhões em 2026, quando as despesas superam as receitas antes do pagamento de juros. Frente ao Orçamento aprovado, a projeção piorou R$ 36,8 bilhões. Ainda assim, a meta fiscal deve ser cumprida formalmente: R$ 63,3 bilhões em despesas, sobretudo precatórios (R$ 57,8 bilhões), ficam fora do cálculo oficial, e o resultado apurado seria superávit de R$ 3,5 bilhões.
No primeiro semestre, a receita líquida cresceu 5,6% acima da inflação, enquanto as despesas avançaram 12,3%. As estatais federais tiveram déficit de R$ 7,8 bilhões de janeiro a junho, o pior resultado da série do Banco Central, iniciada em 2002, puxado principalmente pelos Correios. O levantamento não inclui Petrobras, Eletrobras e bancos públicos. Já os juros somaram R$ 1,11 trilhão em 12 meses até maio, equivalentes a 8,48% do PIB.
A dívida bruta do governo geral somou R$ 10,9 trilhões em julho; pelo conceito do FMI, a relação com o PIB é de 95,4%. As projeções divergem: o governo estima 86% do PIB em 2027, enquanto a Instituição Fiscal Independente (IFI) vê a dívida acima de 100% em 2032 pelo conceito do BC.
Juros, atividade e emprego
O Copom reduziu a Selic a 13,75% ao ano em setembro, o quinto corte consecutivo; a taxa iniciou o ano em 15%. O Focus projeta 13,75% ao fim de 2026, o que mantém o crédito caro por mais tempo. O PIB cresceu 2,0% frente ao segundo trimestre de 2025 e o mercado espera 1,92% em 2026, primeiro ano abaixo de 2% desde 2020. O Copom avalia que a atividade segue resiliente e o mercado de trabalho, aquecido, apesar da moderação em setores mais cíclicos.
No emprego, os sinais são mistos. O Caged registrou 58,6 mil vagas formais em julho, o pior resultado para o mês desde 2020, mas a taxa de desemprego é de 5,3%, a menor da série para o trimestre até julho. No acumulado do ano, foram 972 mil vagas, 21% menos que em 2025.
Setores: desempenho desigual
A produção de veículos cresceu 9,4% em agosto sobre um ano antes e 8,5% no acumulado, com vendas 18,4% maiores no ano, segundo a Anfavea. Os caminhões seguem no vermelho, com produção 8,9% menor no acumulado. A entidade também aponta que as vendas de importados avançam mais que as de veículos nacionais (30,3% contra 17,2%). Na construção, os lançamentos residenciais caíram 1,3% no segundo trimestre (107,2 mil unidades), enquanto as vendas subiram 5,3% (113,6 mil), segundo a CBIC.
Famílias e empresas
Segundo a Peic/CNC, 82% das famílias têm dívidas, ante 78,8% um ano antes, e 29,9% estão com contas em atraso. Entre quem ganha até três salários mínimos, 85,1% estão endividados e 38,8% inadimplentes. A Serasa contabilizou 83,98 milhões de negativados em agosto, com a menor alta mensal do ano (0,06%), em meio a 19,7 milhões de acordos de renegociação entre maio e agosto (+36%). Entre as empresas, 7.726 estavam em recuperação judicial até junho, alta de 20,5% em 12 meses, segundo a Serasa Experian.
O que observar
O Brasil segue abaixo do grau de investimento. A Moody’s, que classifica o país em Ba1, projeta que a dívida suba de 80% para 90% do PIB até 2030 sem reformas e estima que o próximo governo precisará de ajuste de 2% a 2,5% do PIB para estabilizá-la. Nos próximos meses, os indicadores-chave são a dívida bruta de agosto, a reunião do Copom de 3 e 4 de novembro e o PIB do terceiro trimestre, previsto para 2 de dezembro.
